Em cada coleção, o processo é o mesmo: pesquisa, planejamento, criação e desenvolvimento de produtos (compra de tecidos e aviamentos, criação dos looks e estampas, confecção dos moldes e peças, prova de roupas e fichas técnicas), finalizando com a produção de fotos para divulgação e vendas. São muitas etapas e nenhuma rotina. Mas onde tudo começa? Aproveitei minha última viagem à Londres para contar um pouco da minha experiência na 1ª etapa deste longo processo, que se chama pesquisa de tendências, ou trendspotting…

As tendências estão por toda parte e acontecem a todo momento, seja nas passarelas, no cinema, nas ruas ou nas mudanças em geral (sociais, políticas, econômicas, culturais). Qualquer assunto pode virar tendência (desde que você enxergue) e, caso vire, é preciso entender o contexto por trás disso para desenvolver uma boa coleção.
Visitando os principais centros de moda de Londres
Assim como o mundo inteiro faz, visitar os principais centros de moda nos dá uma boa visão sobre o que estará em evidência nos próximos meses. Mas isso não é tudo. Tirar fotos, fazer anotações, ir a desfiles, visitar museus, observar as pessoas nas ruas, sentir o clima, os sabores, os cheiros, tudo isso contribui para essa etapa ser bem sucedida. Feito esse trabalho – e com um pouco de criatividade e disciplina -, o estilista será capaz de fazer sua própria interpretação e criar uma coleção exclusiva, reunindo todas as informações colhidas e adaptando-as ao seu público alvo, sem sair do contexto geral. Afinal, a moda é uma cadeia e muita gente trabalha para isso, promovendo feiras, desfiles e mantendo o mercado em constante movimento.
Abaixo, alguns lugares imperdíveis para pesquisar em Londres:

Lojas e Shoppings para compras e pesquisa de moda

Lugares interessantes para buscar inspiração (Camden Town, Carnaby street, Covent Garden e Portobello Road, em Notting Hill)
As fachadas e vitrines das lojas também são uma grande fonte de pesquisa. Um trabalho de marketing com o objetivo de atrair quem está fora para dentro. É papel do estilista estar atento às vitrines e tentar interpretá-las. Geralmente, as vitrines internacionais são mais sofisticadas e dinâmicas e, portanto, são grande fonte de inspiração também.
Abaixo, algumas vitrines inspiradoras da Oxford street, rua de maior movimento fashion em Londres…

Principais tendências de Inverno (vitrines)
Toda coleção precisa de um tema (pelo menos para mim). Na pesquisa de moda, isso fica muito evidente nas cores, estampas, fits e símbolos que destacam o espírito das coleções.
Como todo ano, alguns temas se repetem, principalmente por causa do clima, mas nesta temporada, o inverno será, no mínimo, um LUXO. Começando pelo Estilo Barroco, referência que vem lá da Idade média, passando pelos Anos 1920 – uma época que marcou a moda, literatura e música -, e chegando aos Anos 1990, com o rock no estilo grunge (tendência que foi pouco explorada no feminino). Os florais também merecem destaque, pois estão em alta neste inverno, porém com uma leitura diferente…
Toda coleção conta uma história
Estilo Barroco
O estilo barroco é uma referência ao movimento barroco que surgiu logo após o renascimento, na idade média, através das artes plásticas, e se manifestou na literatura, teatro e música. Uma época em que o Clero e a Nobreza tinham bastante poder e influência sobre o povo, mas havia um conflito de natureza religiosa, que envolvia a igreja, como o luxo excessivo dos templos, a corrupção do clero e o culto às imagens religiosas, dividindo o povo entre católicos e protestantes. Foi nessa época que a igreja – no intuito de resgatar seus fiéis – influenciou a arte barroca, patrocinando artistas, juntamente com os monarcas e burgueses.
As obras de pintura e escultura desse período são mais detalhistas, realistas e expressam as emoções da vida e do ser humano como antes não se via. Valorizam as cores, luz, sombra e contraste. As imagens são mais dinâmicas e os principais temas são passagens bíblicas e história da Humanidade.
Abaixo, uma passagem pelo museu Victoria & Albert, na ala barroca.

Museu Victoria & Albert (Londres)
Na moda, este estilo se manifestou da seguinte forma: o destaque para os arabescos, enfeites geométricos em forma de plantas, comumente usados no período barroco para decorar colunas e paredes de igrejas e mesquitas, torres e castelos; as pinturas religiosas, que se manifestaram com destaque para os retratos de vida familiar da nobreza e as cenas religiosas; e os objetos e símbolos religiosos, que foram destacados pelas esculturas da época, como a cruz, os anjos e as imagens sagradas. A moda Barroca é ostensiva e carregada de adornos, rendas e bordados, com destaque para o dourado, joias e coroas. Essa tendência veio forte no ano passado e continuará no inverno deste ano.
Abaixo, um pouco mais da arte barroca e renascentista.

Museu Victoria e Albert (Londres)

A moda no estilo barroco
Anos 20
A moda dos anos 1920 se caracterizou pelo período pós-guerra, época em que as mulheres se “libertaram” dos espartilhos e foram às ruas para trabalhar, como consequência da 1ª guerra mundial. Isso tudo se refletiu na moda, com as roupas mais leves, menos marcadas e o comprimento na altura do joelho. As mulheres não se prendiam tanto ao pudor e os decotes começaram a aparecer, deixando colo, ombros e costas à mostra. O batom era vermelho e o cigarro se tornou um acessório feminino. Os destaques são os vestidos estilo tubinho, as aplicações bordadas, franjas, plumas e joias, muitas joias.

Cenas de O grande Gatsby, ilustrações dos anos 20 e coleção infantil de inverno
Neste inverno, essa tendência está de volta, principalmente com o lançamento do filme O Grande Gatsby, protagonizado por Leonardo DiCaprio, um bilionário que tem um romance com uma mulher no passado e promove grandes festas, com o intuito de reconquistá-la. O cenário se passa na década de 1920 e o filme foi destaque, principalmente, pelo figurino impecável, que contou com a participação de nada menos que Miuccia Prada. As peças são bastante elaboradas e causaram impacto por realçar mais do que a moda da época, adaptando-as para os dias atuais… Uma forma de nos aproximar do contexto da época.
Florais e Liberty
Os florais estão de volta e, desta vez, com nova leitura, com bases escuras ou fundo preto na estamparia (adorei!). Afinal, é inverno! Os tons são bicolores ou coloridos. Os tamanhos são variados e vão desde os graúdos até os miúdos – conhecidos por liberty. O nome é uma referência à tradicional loja de departamentos londrina Liberty, criada na década de 1870 e parada obrigatória para os estilistas de passagem por Londres. Também estive por lá para conferir as novidades desta temporada.

Toda a loja é decorada por motivos estampados, especialmente os florais, e vende artigos de luxo para casa – desde móveis e artigos de decoração – até tecidos e roupas, tendo como destaque os famosos lenços de cashmere e os tecidos de estampas miúdas, que ficaram conhecidos pela sua diversidade e cores. Hoje, a loja tem parceria com grandes marcas que também vendem suas estampas originais…

Visita à Liberty – Londres, set/2014
A gente trabalha, mas também se diverte
A pesquisa de moda tende a ser exaustiva, porque temos de visitar vários lugares num curto espaço de tempo, mas também é prazerosa, porque nos enche de informações e experiências incríveis. Estas fotos são algumas das centenas que tirei em Londres, e podem ser vistas em outro post, no meu blog, clicando aqui.

Lembrando que esta é “apenas” a primeira fase de um longo processo, mas, quando bem feita, garante o sucesso de todo o resto.
Termino mostrando um pouquinho da minha coleção inspirada nesta viagem… Uma experiência única que me faz querer voltar…

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