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| Meu olhar sobre moda, estilo e arte, com dicas de leitura e comportamento

A Moda Nua e Crua

Esse post é um resumo do módulo Cultura de Moda Contemporânea da minha pós-graduação em Negócios da Moda, no Centro Universitário SENAC São Paulo, que compartilho aqui por ser um tema relevante e abrangente.

Ministrado pela profa. e Dra. Valéria Brandini, Cultura de Moda Contemporânea fala do lado obscuro da moda, onde não há espaço para romantizar o assunto (pelo menos por quem não atua dentro dele). Para mim, foi como sair da fantasia para entrar no mundo real. A moda torna-se nua e crua quando saimos do seu universo lúdico para adentrar o seu lado produtivo e econômico. Ambos eu já acompanhei de perto e posso falar com propriedade.

Mas vamos à realidade…

Moda não é Arte
A moda precisa ser aceita para ser vendida. Se não for compreendida, não terá saída. A arte pode ser mal compreendida, interpretada, mas, mesmo assim, ser vendida. A moda, se não vende, se acaba. Se não veste, não agrada, se perde. É temporal. Passa. E cada moda que volta, em forma de releitura, não deixa de ser uma nova moda, reinterpretada. Diferente da arte, que é perpétua, única e contínua, em suas obras.

Moda é um Sistema
Moda é uma composição estética, orquestrada pela mídia externa, orientada pelo capital. Qualquer coisa pode ser linda, desde que esteja no topo da cadeia. Isso é moda. Moda é um sistema de produção de padrões. Ela se orienta diferentemente do estilo por uma questão de sazonalidade, por orientação forte de mercado. A moda produz padrões, conceitos.
A moda é um sistema porque é um negócio. Não adianta criar nada sem visão de negócio, sem ter a possibilidade de retorno. (Ler O código do Vestir e O Capital)
Em O Capital, cria-se um fetiche em cima do produto e esconde-se a lógica da produção, ou seja, o que existe por trás. Você vê aquilo que o produto significa. É o fetiche da mercadoria que cria o desejo de consumo. É a substituição daquilo que é real por um significado. É a fantasia em cima do produto, mascarando o que ele realmente é.
A moda é um sistema porque tem sazonalidade. O produto de hoje é feito para ser obsoleto, para trocar, para quebrar, a partir de um período após adquirido. Nós pagamos mais hoje para produtos durarem menos! Produtos que deveriam durar mais pelo avanço da tecnologia são feitos para durar menos, porque o sistema e a indústria precisam escoar. É a chamada obsolescência programada.

Obsolescência programada
Obsolescência programada é o termo usado quando um produto perde a sua aderência e deixa de ser interessante. E quem permanece é considerado fora de moda. Ele (produto) acaba porque dá origem a um novo produto, contado através de uma nova história que vai “seduzir” o consumidor. Um exemplo disso são as TVs que compramos e, muitas vezes, só duram exatamente o prazo que pagamos, precisando recorrer a seguros para não perder o produto.

A história (o código da marca) é o que faz com que se deseje um produto. O telefone da Apple, por exemplo, é caro e você só compra o último lançamento porque tem uma história por trás dele, tem o código da marca.

Luxo
A moda nasce no luxo, no inatingível. À medida que vai alcançando os ricos, a classe média, os pobres, à medida que você se distancia do centro do capital, ela já está em desuso há muito tempo no centro de onde ela surgiu.

Amoda é discriminatória

A moda é injusta, desleal, discriminatória. O luxo é uma necessidade de acúmulo e diferenciação. O luxo nasce com a humanidade. Todo mundo quer ter, quer saber. O luxo é raro, escasso e seletivo. Quando um produto de luxo se torna mais acessível, é quando determinada classe tem ascensão financeira.

Rico não gosta de classe média

À medida que a classe média vai crescendo e alcançando o rico, esse quer subir cada vez mais para não ser alcançado. Tal qual a burguesia fazia com a nobreza. A diferença é que a burguesia nunca se tornaria nobreza. Já a classe média pode ser rica.

A marca e a moda

Antes de entender o que seu público gosta, procure saber o que ele NÃO gosta. Moda é um sistema de exclusão. Ela codifica e as pessoas têm necessidade de pertencimento a um grupo, de serem presentes, de estarem presentes em um grupo, em não tornarem-se obsoletas. E a moda coloca você dentro desse presente, para lhe deixar atualizado, pertencente ao grupo. As pessoas têm medo de tornarem-se obsoletas. Você como marca precisa saber qual o público e sazonalidade do seu estado. Discussão muito divergente.
Se você quer estudar Negócios da Moda, você deve mapear quem é o seu público. Para você descobrir seu público alvo, você precisa entender se o seu público é o que você gosta ou o que você gostaria que fosse para você. Ou entender o que ele realmente é.

Estilista com visão de negócios

O criador de moda, estilista tem a visão do que pode ser produção, confecção da peça, seus termos técnicos ou a visão conceitual do produto, mas não tem visão de negócio de moda e isso pode quebrar a sua visão de confecção. O estilista é um visionário por trás da produção de peças únicas e conceituais, imbuído de conhecimento técnico e uma sensibilidade artística ímpar. No entanto, muitas vezes, essa expertise não é suficiente para garantir o sucesso no competitivo mundo da moda. A visão apaixonada pela criação pode ser ofuscada pela falta de compreensão da intricada teia que é a indústria da moda.

Ao focar exclusivamente na parte criativa, pode negligenciar aspectos cruciais relacionados ao negócio de moda. Questões como gestão financeira, estratégias de marketing, identificação do público-alvo e análise de tendências de mercado são elementos essenciais que não podem ser ignorados. A ausência de uma visão abrangente de negócios pode comprometer não apenas a viabilidade econômica do negócio, mas também a realização plena da visão inicial de confecção.

É crucial que o estilista compreenda o lado comercial da moda para garantir o sucesso da marca, organização etc. Trabalhar com especialistas em gestão e marketing é essencial para transformar uma ideia criativa em um produto que seja popular no mercado. Encontrar o equilíbrio entre expressão artística e lucratividade é a chave para prosperar na indústria da moda.

O consumidor de moda quer ser exclusivo

As pessoas querem comprar moda porque querem se inserir no grupo presente ou no grupo que gostariam de pertencer. Mas, mesmo dentro do grupo, elas querem ter características diferentes do grupo. Ser exclusivas, expressar sua personalidade.

A moda é uma forma, um meio, um instrumento, um marcador social. Ela é um meio, comunica coisas. A moda transcende o simples ato de vestir-se; ela é uma forma de expressão, um meio poderoso e um instrumento sutil de comunicação. Mais do que simplesmente cobrir o corpo, a moda é um marcador social que revela muito sobre a identidade, estilo de vida e valores de uma pessoa. As escolhas de vestuário, os estilos adotados e as tendências seguidas são meios pelos quais indivíduos comunicam suas personalidades e participam ativamente do diálogo cultural. Assim, a moda desempenha um papel fundamental na formação de identidades individuais e na criação de narrativas visuais que ecoam nas complexidades sociais de uma época.

Moda e Passado não combinam

A moda não existia no passado. A roupa era usada por necessidade de proteção. À medida que os humanos desenvolveram diferentes tipos de tecidos, como os feitos no tear e a partir de peles, surgiram padrões distintos. Esses padrões, inicialmente guiados pela funcionalidade, gradualmente transformaram-se em expressões de estilo e identidade, marcando o início da história da moda.

Idade média

A Idade média significou um período de 1000 anos (séc V a XV) vivendo a tradição, respeitando a tradição que passava de pai para filho. A profissão do pai que passa para o filho, por exemplo. São características dessa época a Igreja, a Inquisição e obediência ao Pai, como um Deus. Com o Renascimento (Idade moderna séc. XVI a XVIII), surgiu a valorização do homem e as descobertas em Ciências e Artes começaram a surgir. Com isso, o NOVO surgiu, diferente do perfil da idade média. Na idade média se usava um mesmo padrão de roupas pela tradição. Com o novo, as pessoas passaram a querer roupas diferentes da mãe, da filha… É quando começa a surgir a MODA, quando a roupa deixa de ser vista como necessária e passa a ser vista como a busca pelo novo. O novo distante.

O que vivemos hoje em termos de ano, o que desejamos mudar por ano, eles faziam isso por séculos.
A indumentária dos nobres (e da Igreja) era rica em detalhes, mas não era MODA, porque não tinha sazonalidade. Era uma roupa, uma indumentária, não tinha limite de uso. Quem tinha maior poder econômico tinha maior poder de moda.

Idade moderna

Com a Idade Moderna, a moda deixa de ser apenas um sinal de posição social e passa a representar a busca constante pelo novo. O Renascimento fortalece a valorização do indivíduo, das artes, das descobertas científicas e da vida urbana. As pessoas começam a desejar diferenciar-se não apenas pela riqueza, mas também pela aparência.

É nesse período que surgem mudanças mais frequentes no vestuário, especialmente entre a nobreza europeia. A corte francesa, principalmente durante o reinado de Luís XIV, transforma-se em referência de elegância e comportamento. A roupa passa a comunicar status, poder e pertencimento social. Vestir-se de determinada maneira significava demonstrar proximidade com os grupos mais influentes da sociedade.

Ao mesmo tempo, o crescimento do comércio internacional amplia o acesso a tecidos, corantes e matérias-primas vindos de diferentes partes do mundo. A produção têxtil se desenvolve e o consumo ganha importância econômica. A aparência deixa de ser apenas uma necessidade funcional e torna-se um instrumento de distinção social.

A moda, portanto, nasce quando o desejo de mudança passa a substituir a tradição. Enquanto na Idade Média a repetição era valorizada, na Idade Moderna o novo torna-se desejável. A novidade passa a ter valor próprio. Essa lógica permanece até hoje e constitui uma das bases do sistema da moda contemporânea: a constante renovação de produtos, imagens e comportamentos.

Foi também nesse contexto que se formaram os primeiros alicerces do consumo de moda como conhecemos atualmente. A busca por diferenciação, exclusividade e reconhecimento social criou uma dinâmica que, séculos depois, daria origem à indústria da moda, às tendências e ao mercado voltado para a permanente substituição do que já existe pelo que acaba de surgir.

Essa transição ajuda a compreender por que a moda contemporânea está tão ligada ao consumo, à sazonalidade e à necessidade contínua de inovação. O desejo pelo novo, iniciado na Idade Moderna, continua sendo um dos principais motores do sistema da moda atual…

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